SAF Cerrado 2025
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AVALIAÇÃO DE VIABILIDADE FINANCEIRA DE SAFS COMO
FERRAMENTAS DE RESTAURAÇÃO, CONSERVAÇÃO
E DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL NAS ZONAS DE
TRANSIÇÃO ENTRE CERRADO E AMAZÔNIA
Marco Oliveira Bellotti
1. INTRODUÇÃO
1.1 Cerrado, a caixa d’agua do Brasil
O cenário de mudanças climáticas se apre -
senta como um desafio global sem precedentes.
A perda de habitats e de paisagens naturais, em
grande parte impulsionadas pela expansão da
fronteira agrícola e a mudança de uso do solo
(Marengo et. al., 2022), tem impactado direta -
mente a saúde dos ecossistemas e a qualidade
de vida das populações humanas e não humanas.
Nas últimas décadas o desmatamento em
terras brasileiras se concentrou na Amazônia
e no Cerrado. Somente nos últimos cinco anos,
aproximadamente 8,56 milhões de hectares de
vegetação nativa foram derrubados no Brasil,
dos quais 85% se concentram nos biomas supracitados (Mapbiomas, 2024). No ano de
2023, o Cerrado apresentou um aumento de
67,7% em área desmatada em relação ao ano
anterior, ultrapassando pela primeira vez o
desmatamento anual registrado na Amazônia
(Mapbiomas, 2024).
O Cerrado é o segundo maior bioma brasi -
leiro e uma das principais formações vegetais do
país. Considerado a savana mais rica do mundo,
o bioma abriga 5% da biodiversidade planetária,
um terço da fauna nacional (Imaflora, 2019) e
é formado por 11 tipos principais de vegetação,
agrupados em três fitofisionomias: Formações
Florestais, Formações Savânicas, e as Formações
Campestres.Conhecido como a “caixa d’água do Brasil”,
o Cerrado abriga seis bacias hidrográficas e
14% da produção hídrica nacional. O bioma
atua como um importante regulador hídrico e
mantenedor do ciclo hidrológico, promovendo
a infiltração de água no solo e a evapotrans -
piração, agindo na regulação da temperatura
e da umidade do ambiente (Gash et al., 1996;
Nobre et al., 2016). Além disso, o bioma atua
como zona de recarga para o aquífero Guarani,
segundo maior aquífero subterrâneo do mundo
(Imaflora, 2019).
Apesar de sua importância, a atenção inter -
nacional segue focada nos índices de desmata-
mento amazônico, muitas vezes em detrimento
da atenção depositada sobre os demais biomas
do território nacional (Lahsen et al., 2016). O
desmatamento evitado na região amazônica,
resultado de políticas públicas e de acordos
de cadeias de suprimentos agropecuários,
tem migrado para o Cerrado (Yue et al. 2018,
Mapbiomas, 2024).
A mudança de uso de solo para a expan -
são agrícola na zona de transição entre Cerrado
e Amazônia, onde predominam as Formações
Florestais, representa a maior ameaça ao bioma
(Santos et al. 2021), resultando na piora das con-
dições climáticas na região, que hoje apresenta
altas temperaturas, secas mais longas, frequentes
e severas e perturbações por fogo mais frequentes
e destrutivas (Marengo et al., 2022). A degradação
do bioma não apenas contribui para a insegurança
hídrica, mas também coloca em risco populações
tradicionais e originárias e seus modos de vida
profundamente enraizadas aos territórios (Sano
et al., 2021; Marengo et al., 2022).
Neste contexto, os Sistemas Agroflorestais
(SAFs) se apresentam como modelos produtivos
com grande potencial de recuperação das paisa -
gens e fitofisionomias naturais e de restauração
da sociobiodiversidade do bioma. 1.2. A Cadeia de Restauração Agroflorestal e os
SAFs
Apesar de estar em franco crescimento, a
cadeia da restauração agroflorestal brasileira
ainda se apresenta insipiente. Faz-se necessário
superar algumas barreiras para a expansão de
iniciativas agroflorestais como modelos viáveis
e replicáveis de produção agrícola:
1. Falta de conhecimento técnico e estigmati -
zação da prática agroflorestal.
A Revolução Verde, movimento que, nas décadas
de 50 e 60, ampliou a concepção e implantação
de modelos agrícolas monoculturais, mecani -
záveis e altamente dependentes de insumos
químicos externos, ainda pauta grande parte
do conhecimento técnico aplicado e difundido
no campo através de programas de ATER e de
pacotes tecnológicos de produção vendidos aos
produtores rurais. Esse cenário resulta em um
gradual e constante abandono das práticas agrí -
colas policulturais praticadas pelas comunida -
des tradicionais, originárias e campesinas. Desta
forma, o produtor rural carece não apenas do
conhecimento e da proximidade da experiência
empírica para a implantação e manejo de siste-
mas agroflorestais, mas também da oferta de
serviços de assistência técnica que facilitem o
resgate de ditas práticas.
Além disso, é importante ressaltar que o esforço
de universalizar modelos agrícolas monocultu -
rais passou, e passa, por alimentar o descrédito
de práticas agrícolas tradicionais. Assim, a
implantação e a expansão de modelos produti-
vos agroflorestais enfrentam também a estig -
matização como iniciativas pouco eficazes, de
baixo potencial produtivo, pouco rentáveis e
como práticas características de camadas mar -
ginalizadas da sociedade.
2. Falta de capital próprio e dificuldade de
acesso a crédito para investimento em siste -
mas agroflorestais.
Devido a sua maior biodiversidade e
Figura 1 - Fitofisionomias do Bioma Cerrado
(Fonte: https:/ /www.embrapa.br/ cerrados/ colecao-entomologica/bioma-cerrado )
Capítulo 4: Estudos de Viabilidade Econômica | 21
Sistemas Agroflorestais: Salvaguardas no contexto brasileiro e Viabilidade Econômica no Cerrado
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